"Aqui é trabalho, meu filho"

By Mario Mancuso

Na ocasião da inacreditável derrota da seleção brasileira de futebol, frente à seleção alemã, li diversos artigos e opiniões da mídia especializada. Entre os chavões de sempre, acusações e teorias conspiratórias, o que mais me chamou a atenção foi um artigo sobre o trabalho de preparação da seleção alemã.
Neste link temos uma cópia do artigo em questão comentado pelo advogado Mauricio Gieseler - http://blog.portalexamedeordem.com.br/blog/2014/07/preparacao-de-longo-prazo-investimento-e-estrategia-algumas-licoes-a-serem-aprendidas-com-a-selecao-alema/ , no qual ele aponta a importância da preparação a longo prazo.
Claro que falar de preparação frente a uma derrota (com ares de fracasso) como aconteceu é mais do mesmo, mas acho que podemos tirar algumas lições para uma ótica do nosso cotidiano.
Como professor, educador e pesquisador, sou adepto fiel da Meritocracia. Para quem não sabe, Meritocracia (do latim mereo, merecer, obter) é a forma de governo baseado no mérito. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento, e há uma predominância de valores associados à educação e à competência.
A meritocracia é comum dentro do ambiente corporativo e em grande parte dos meios acadêmicos, porém é mal interpretada, a meu ver, nas suas múltiplas formas, através da valorização apenas de conceitos quantitativos (ou seja, através de resultados numéricos, comum, por exemplo, quando falamos de metas de vendas) e poucas vezes qualitativos (por ser uma forma de análise subjetiva). Também é combatida por muitas pessoas que enxergam nela um regime discriminatório e um culto ao sucesso e ao privilégio elitista.
Contudo, se formos pensar no cerne da questão (e esse pensamento vem da minha opinião e vivência pessoal), a premiação não deve se dar por nenhum outro meio senão pela conquista, pela realização pessoal.
Concordo que essa forma de ver as coisas soa um pouco utópica e ingênua, e por isso mesmo há a grande demonização do mérito- um dos argumentos é a exclusão daqueles sem condições e isso frequentemente é a justificativa de programas assistenciais como o bolsa-família e a lei das Cotas. Contudo, o que se vê é mais um problema de oportunidades e infraestrutura, ou seja,  criar condições para que o maior número possível (senão todos) possam concorrer em igualdade de condições. Justamente a diferença de condições de preparo é que tem de ser combatida. Um passo seria garantir um ensino de qualidade na rede pública, matéria que vai muito além da simplista discussão salarial de professores, tendo muito mais a ver com propostas pedagógicas e políticas públicas. 
Leia http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/gustavo-ioschpe-derruba-12-mitos-da-educacao-brasileira
No caso da Lei das Cotas, quero fazer um parágrafo próprio pois acho que uma lei que presumi cotas para Negros e Índios mais promove a discriminação e a discórdia pois uma coisa é dar oportunidade a cidadãos sem condições econômicas (seja da etnia que forem), outra é especificar esta ou aquela etnia com privilégios, ainda mais baseada numa justificativa idiota de compensar um erro histórico – imaginem que o Vaticano suspendesse os católicos de suas obrigações religiosas para compensar os crimes da Inquisição....
Mas voltando à valorização do mérito, do trabalho e da preparação, quero falar sobre duas situações que vivo bastante.
A primeira se relaciona à minha atividade como professor e educador. A despeito de críticas, muitas vezes superficiais e infundadas à geração presente, usuária de redes sociais, google e smartphones, há de se dizer que eles primam pelo sentimento de urgência e falta de planejamento. Tudo é feito as pressas e sem a devida análise, pautando-se no improviso e na superficialidade. Empurra-se com a barriga e se apoia no jeitinho. E obviamente, o resultado não vem e aponta-se como problema uma suposta “falta de condições” para realizar-se melhor a tarefa proposta.
Um exemplo que posso trazer, para ficar mais tangível, é sobre uma das disciplinas que ministro, de desenho técnico para arquitetura, na qual vemos muito frequentemente os alunos tirando notas baixas repetidamente, pois não consultam livros e as normas de representação gráfica indicadas nas disciplinas. Outro exemplo, são alunos de cursos de desenho que limitam-se a desenhar – praticar apenas durante a aula (geralmente um tempo de 4h por semana) e não entendem porque não logram sucesso ou obtém oportunidades de trabalho. Como professor, posso dizer que 70% das notas baixas se referem a falta de trabalho, comprometimento. A pesquisa e o esforço próprio é maior parte do trabalho, ao contrário de uma cultura que espera que se receba tudo de "mão beijada".
Claro, há inúmeras justificativas como falta de tempo (a preferida), mas como é possível desempenhar-se uma atividade, obter aprovação em exames ou mesmo realizar uma profissão sem o devido preparo?? Muitos desses alunos vêm até mim implorando um acréscimo de nota justificando-se de todas as formas, mas o que há de se fazer?
Vejam bem, não se trata de julgar o aluno, as razões pelas quais ele não realizou a tarefa, mas de que o resultado é fruto do produto entregue e sem produto não há nota! Não é possível se “dar nota”, ou seja, premiar um aluno, promove-lo sem que o mesmo demonstre merecer.
Isto não é igual ao que aconteceu a nossa seleção? O 7 x 1 contra a Alemanha não foi um acidente, como a Comissão Técnica da Seleção Brasileira quis fazer crer, mas fruto da falta de preparo, trabalho, planejamento e ação que permeou toda a história pré e durante a Copa de 2014.  Perder de 1, 2 até 3 x 0 faz parte do jogo, mas de 7????
Voltando ao ambiente acadêmico, o aluno que não estuda, pesquisa e se empenha, vai esperar o que na hora do exame? Como diria Felipão, um apagão. Como todos viram, um desastre. 
Nada provém do nada.
O pior que este comportamento baseado no improviso e do “vou ver o que dá para ver como fica” parece impregnado em tudo, cada dia mais. Nossas leis, a administração pública (ande pela cidade de São Paulo para ver), tudo parece ser feito desta forma.

As ações assistenciais do governo podem (e devem) ser feitas enquanto medidas paliativas e emergenciais, enquanto se estrutura um sistema melhor de promoção social como um todo, mas não tornar-se uma regra. Não vemos nenhum investimento em educação, saúde, infra estrutura, geração de empregos que resultem na extinção dessas “bolsas” que viraram moda nos últimos anos. Com isso, vai-se inchando uma conta que em algum momento terá de ser paga.

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