Por Leandro Sartori Molino
Quem
ganhou, ganha e ganhará com isso? Certamente que nem eu e tampouco você. O
futebol, amiguinho, não paga as suas contas.
Nasci
em 1975, sob o signo de Áries, no País “Tri-campeão do Mundo de Futebol”. A decepção com a derrota brasileira diante da
“laranja mecânica” holandesa um ano antes (1974) estava ainda sendo digerida e
as expectativas com relação à participação do Brasil na Copa da Argentina, que
se realizaria em 1978, eram bastante razoáveis. Sob o comando de um estudioso
do futebol, educado na Escola de Educação Física do Exército, Cláudio Coutinho,
a seleção brasileira tentaria, em terras portenhas, reassumir a sua história de
conquistas futebolísticas, iniciada em campos suecos na campanha de 1958.
Teríamos, ainda, aliado à ciência, Rivellino em campo. Os auspícios eram os
melhores.
Não
me lembro de nada, absolutamente nada da Copa de 1978. Tinha apenas 3 anos de
idade. Só me recordo que gostava de dormir com uma bola ao lado, colocada em um
canto do berço.
O
Brasil foi campeão em 1978, em solos argentinos. Campeão moral de futebol.
Título este que, sabemos, não é verdadeiro ou realístico. Para justificar uma
campanha no mínimo discutível, a “esperteza brazuca” se saiu com mais essa
máxima, acusando os anfitriões (direta e precisamente) de burlarem o até então
nem tão famoso "fair play" para desclassificarem o Brasil (um
episódio do Peru, literalmente).
A
partir dos meus 5 anos de idade, 1980, comecei a, de fato, bater uma bolinha.
Era contra a porta do armário do quarto dividido por mim e por meu irmão
(nascido em 1977) mas, para mim, era como se estivesse em um gramado
verdinho...
Mudamos
algumas vezes de endereço nessa fase de nossa vida familiar. A família crescia
(em 1980 veio fazer parte da festa minha irmã) e meu pai, empenhadíssimo,
procurava locais onde uma família típica de classe média pudesse dispor de
conforto e espaço (esse último ainda existia em São Paulo).
Em
1982, quando conheci o meu primeiro amor, já morávamos em uma confortável casa
na Rua Arthur Napoleão, Colônia da Glória, Aclimação (bairro de infância de
meus pais e também nosso). Quando a Copa da Espanha se iniciou, tinha 7 anos.
Não entendia absolutamente nada sobre efeito, embaixadinha, marcação,
“overlap”, sistema de jogo... futebol era a minha paixão lúdica, pura diversão,
resumida em colocar meu irmão no gol (o portão de casa) e meter uma “bicuda” na
bola, de preferência em um ponto do portão onde ele não alcançaria. Uma
diversão pura, simplista e barata. Calçava meu “kichute” amarrando o seu
gigantesco cadarço sobre os meiões azuis nas canelas (brancos sujavam muito,
segundo nossa treinadora, minha mãe - não apreciava a amarração por entre as
suas cravas), meu shorts azul, minha camiseta “falseta” da seleção com o n.º 8
às costas e era correr pro abraço!
Ao
término do primeiro jogo da campanha brasileira de 1982 (vitória, de virada,
sob os temíveis soviéticos que, diziam, teriam se preparado de maneira
“científica” para vencer o Brasil), meu coração foi apresentado à seleção
brasileira de futebol.
Minha
alma, que já se esbaldava de felicidade ao praticar o ludopédio, se amarrou ao
meu coração e, a partir daquele momento, minha vida se transformou. Lembro-me
de, com 7 anos de idade (!!!) sentar à frente da TV e “congelar” assistindo aos
jogos da seleção capitaneada por Zico, Sócrates, Falcão e companhia, comandada
pelo “mago” Telê Santana. Aquilo sim era futebol!!!! Eu queria jogar como
eles!!!
Minha
carreira de comentarista esportivo foi iniciada e findada naquela Copa, mais
precisamente enquanto o Brasil vencia a Argentina de um garoto de nome
estranho, um tal de Maradona. Detalhadamente, quando Maradona fez falta dura
sobre Batista e berrei: “Tinha que cortar as pernas desse cara!”. Não é uma
coisa boa para uma criança de 7 anos bradar, convenhamos. Minha mãe queria me
proibir de ver o restante da Copa. Em uma negociação duríssima, convenci-a de
não proceder daquela forma, desde que não abrisse mais a boca.
O
Brasil foi desclassificado daquele mundial no jogo seguinte, ao entregar o jogo
a um País que não mais existe, um tal de “Paolo Rossi”, tão pobrezinho que
vestia, emprestado, o uniforme da Itália. Prefiro essa versão, gerada na fértil
cabeça de uma criança de 7 anos, do que a verdadeira. Até por ser descendente
de italianos.
Em
1986, já com 11 anos de idade, entendia muitíssimo sobre a bola. Redonda,
formada por uma câmara interna de borracha muito flexível, inflada através
daquelas bombas manuais com um bico que penetrava a sua válvula, revestida por
gomos de couro. Nada, ainda, sobre futebol.
Nessa
época, por força de alguns assaltantes, deixamos nossa casa e passamos a morar
em um apartamento confortável, ainda na mesma Aclimação. Ali, graças aos tais
assaltantes, tínhamos à disposição, em plena zona central de São Paulo, um
verdadeiro clube: piscinas (aquecida e coberta, e não), lanchonete, quadra
poliesportiva coberta, tatame, sala de ginástica (esse era o nome...), aulas
sobre a prática dos mais variados esportes (escolinhas)... tudo isso ao nosso
dispor, bastando o aperto do botão do elevador.
Em
nossa família, sempre fomos intimamente ligados, relacionados, ao futebol. Meus
avôs (todos), palmeirenses. Meu pai, idem. Meu irmão, também. Creio que minha
irmã também o é. Eu? Sou a ovelha “alvi-negra” da família: corinthiano. Segundo
meu pai, deserdado. Mas, e daí? O que importa é o amor, o desapego. Não quero
ser o sujeito mais abonado do cemitério, sabe?
Percebam,
com isso, que meu pai se trata de um homem democrático, especialmente em alguns
segmentos dos mais fechados. Sou seu primogênito e, mesmo assim, corrompi as
regras de estilo e não consegui amar a mesma agremiação de prática do futebol
de meus avôs e pai. Rompi uma linhagem familiar? Não, pois existem outros
Molino’s corinthianos por aí, especialmente na Zona Leste da Cidade. Mas é
indubitável que tive ao meu dispor, dentro do seio da minha família, graças ao
meu pai, a possibilidade de escolher o meu verdadeiro amor. Serei eternamente
grato a ele por ter aceitado essa relação que poderia, em tese, causar-lhe
certa estranheza.
O
futebol, com uma quadra “poliesportiva” à sua disposição, se tornou algo ainda
mais corriqueiro. Praticávamos durante, ao menos, 6 a 7 horas diárias uma coisa
que chamávamos de “showball”, divididos em equipes com 5 componentes, onde não
havia lateral mas haviam escanteios (cobrados com os pés) e os gols somente
valiam se anotados de dentro da área (do futebol de salão – ainda não existia o
futsal). A bola era a de campo, a famosa “n.º 5” de outrora (não a do salão),
pois, além de ser bem mais gostosa, permitia que jogadas típicas do futebol de campo
fossem executadas naquele ambiente “hostil”, de cimento, como o lançamento, o
cruzamento e o cabeceio.
É
preciso esclarecer que nem por isso a minha habilidade com a bola se
desenvolveu como gostaria ou imaginava. Caso Ronaldo, Ronaldinho, Cristiano
Ronaldo, Romário e tantos outros ídolos do futebol “moderno” tivessem praticado
futebol por tantas horas como feito por mim, teriam marcado, por baixo, uns 5
mil gols cada. O futebol não seria o mesmo. Mas, enfim, cada um com suas
deficiências, não é mesmo?
E
exatamente por isso, por perceber logo cedo que dentro do “campo” só
conseguiria ser uma versão moderna e piorada de Dunga ou de Bert Vogts, nunca
um Luiz Pereira ou um Beckenbauer da vida, resolvi entender um pouco mais sobre
a teoria do futebol do que aqueles que já nascem prontos para a prática do
esporte bretão. Convenhamos que meu papel não seria em nada facilitado, pois
nasci no Brasil, não na Dinamarca. Nasci em um país onde até as pulgas nascem
sabendo jogar futebol. Menos eu.
Diverti-me
absurda e absolutamente jogando futebol naquela quadra. Foram incríveis 10 anos
simplesmente inesquecíveis. De muito suor, risadas, amizades, brigas... tudo
aquilo que só o futebol propicia. E óbvio (preciso “puxar a minha sardinha”...
afinal, a propaganda é a alma do negócio) que, depois de tanto tempo negociando
com a bola, ela, “la vieja” nos dizeres do grande Di Stéfano, me ensinou alguns
truques que melhoraram a minha performance. Atualmente, todos esquecidos,
evidentemente.
A
paixão pelo futebol se transformou, naquele cenário e hiato, em amor. Se hoje,
no auge dos meus 39 anos, pudesse optar por exercer qualquer outra profissão
que não a advocacia, responderia que procuraria algo relacionado ao futebol.
Nem que fosse com a escrita do futebol. Seria feliz, até, escrevendo para a
Dona FIFA as regras do futebol!
Exageros
à parte, desenvolvi “sem querer-querendo”, como diria Chaves (o original
mexicano, não sua versão ditatorial venezuelana), uma chata capacidade de
enxergar o futebol por “outros lados”. É uma condenação cármica, tenho certeza.
Não consigo mais assistir a qualquer joguinho meia-boca que seja sem desenhar o
plano tático das duas equipes, observar o posicionamento dos goleiros, se os
laterais são mesmo laterais ou alas, se o setor de marcação está aproximado ou
se gera espaços, se a criação está “democratizada” ou se depende dos pés de uma
única estrela, se os atacantes são realmente atacantes ou meros velocistas, se
o jogador está posicionando o pé de apoio corretamente para o chute, se bate na
bola direitinho em cruzamentos, para que ela adquira a tal “curva”, o efeito,
se a matada de bola no peito é realizada com o desinflar dos pulmões ou se é
feita no estilo “tijolada”, se o sujeito cabeceia testando para o chão e com os
olhos abertos... entendeu quando digo que isso é infernal?
Deixei,
tenham certeza, de me divertir com o futebol. Antes, quando eu não sabia nada
sobre essa teoria toda, o futebol era uma mulher charmosa, instigante, linda,
20 aninhos, loura, olhos claros, repletas de sardas nos ombros e no narizinho,
marquinha de biquíni de lacinho de alguma praia do litoral norte paulista, 1,68
metro de altura com, no máximo, uns 55 quilos.
Hoje, não passa de uma senhora de 234 anos, seios mais do que flácidos,
bunda caída, repleta de ondulações e acidentes geográficos (já ultrapassaram a
categoria de meras celulites e estrias), bigoduda e sem fazer as unhas. Uma joça.
Dessa
forma, passei a me interessar, como último recurso de salvação, sobre os
aspectos extra-campo do universo do futebol. E, nesse estudo, minha veia de
péssimo boleiro e de razoável advogado falou mais alto.
Quando
criança, vivi amedrontado pelo risco de crescer em um País que só soubesse
jogar futebol. A tal “Pátria de chuteiras”, cunhada pelo inesquecível Nelson
Rodrigues, me atormentava. Eu não me encaixaria nesse padrão, nesse estereotipo,
jamais. Cresci, no entanto, em um País muito pior do que o presente nos meus
mais lastimáveis pesadelos, aquele que utiliza uma paixão nacional esportiva
indiscutível, que já se tornou um aspecto sociológico, como uma droga
entorpecente apta a tornar as pessoas incapazes de enxergar, compreender e
trabalhar as mazelas reais que nos acometem em nosso dia-a-dia.
Compreendi,
com o passar dos anos, que o amor pelo futebol não é algo que acontece no
Brasil por acaso, em razão das aptidões inatas de seu povo, como a “propaganda
oficial” propala. Até pode acontecer. Mas, em verdade, o amor pelo futebol é
patrocinado pelo “stabilishment” como um dos aspectos de controle social.
Aliás, dos mais eficientes.
Dentro
de um ambiente lógico e racional, é sabido ser absolutamente impossível que
sejam “produzidos”, em uma população de 200 e poucos milhões de habitantes,
mais do que 0,5% de “boleiros” (ou, aproximadamente, 1 milhão de pessoas).
O
futebol profissional do Brasil emprega, segundo dados governamentais (MTE),
cerca de 750 mil pessoas em todo o território nacional, em todas as suas
divisões reconhecidas.
Somente
os atletas que atingem equipes como Corinthians, São Paulo, Santos, Palmeiras,
Grêmio, Internacional, Atlético Paranaense, Coritiba, Flamengo, Fluminense,
Botafogo, Vasco da Gama, Goiás, Bahia, Vitória e Sport de Recife (16 entidades
de prática), instaladas em apenas 7 dos 26 Estados do Brasil (e D.F.),
conseguem sobreviver de sua prática. E, mesmo assim, as discrepâncias
existentes, mesmo dentro desta classe de “afortunados”, é tão profunda quanto o
mais profundo dos cânions.
O
futebol é a “ritalina” social brasileira. Em um ambiente altamente estimulador ao
seu consumo.
E
quem lhes afirma isso, meus caros, é alguém que simplesmente ama a sua prática
esportiva, como entretenimento.
Quando
eu menos esperava, lá pelos idos de 2007, o Brasil foi eleito pela FIFA, a
detentora do monopólio global do futebol profissional, como “País-Sede” do
maior evento dedicado a um único esporte do Globo, a “FIFA World Cup”. Com sete
anos de antecedência, o Brasil foi eleito para sediar o evento em 2014, com o
flagrante e manifesto apoio de seu Governo Federal. Um Governo que se dizia
preocupado com o “social” evidenciou, naquele instante, que estava mais preocupado
em fazer uma “social” com os altos figurões de uma das mais mafiosas atividades
remuneradas da história da civilização.
Não
compreendam, por favor, com desfaçatez a minha afirmação. A Alemanha e os USA,
por exemplo, podem, na minha concepção, promover um evento desta magnitude
sempre que desejarem, investindo a quantidade aviltante que é necessária à sua
realização. São sociedades minimamente consolidadas e tal “desperdício” pode,
com razoável facilidade, advir da iniciativa privada, especialmente na
construção das “arenas”. O Brasil, não poderia. Aqui, o “sistema é bruto”.
Não
me importa, realmente, se o valor total investido pelo Brasil para a realização
da Copa do Mundo de 2014 significou 1 ou 100 por cento do valor que
teoricamente seria destinado, nesse mesmo exercício, à pasta do Ministério da
Educação. Um País tão desequilibrado socialmente como o nosso não poderia se
dar ao luxo de desviar o foco de seus investimentos sociais sequer em moedinhas,
em centavos! Todos eles deveriam ser direcionados (só) durante, ao menos 15
anos, aos gastos com saúde pública, educação, cultura e mobilidade urbana.
Somente
atitudes radicais desta natureza e magnitude é que podem fazer surgir um
ambiente social minimamente capaz de romper realmente a linha da pobreza
eterna, especialmente de valores, a que aparentemente estamos nos submetendo.
O
legado da Copa? Falaremos mais inglês (a língua internacional do comércio) após
o término da competição? Teremos uma efetiva e substancial melhora na nossa
qualidade de vida, na renda-média, na qualidade das instalações e atendimentos
hospitalares da rede pública? Nossas escolas terão instalações tão suntuosas e
funcionais quanto às das “Arenas” da Amazônia, do Pantanal ou a de Brasília?
Creio,
sinceramente, que não. A Copa, por si só, não é capaz de produzir nada disso na
vida de qualquer ser humano. E o Brasil,
ao promover e comercializar o marketing de que uma dada competição bilionária,
dedicada a uma única prática esportiva, seria capaz de promover legados
sociais, e não meramente econômicos, realmente optou por não ser mais a “Pátria
de chuteiras”, mas por assumir, desavergonhadamente, o slogam de “Máfia de
Chuteiras”.

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